O Mistério do Retorno de Elias e Henoc

‘Eis que eu vos enviarei o profeta Elias, antes que venha o grande e terrível dia do Senhor’ (Malaquias 4, 5)
O mistério do retorno de Elias e Henoc

 

Santo Elias raptado num carro de fogo diante de Santo Eliseu. Santo Elias raptado num carro de fogo diante de Santo Eliseu.Foto: Juan de Valdés Leal (1622 – 1690), Igreja de Nossa Senhora do Carmo, Córdoba, Espanha.

 

 Santo Elias raptado num carro de fogo diante de Santo Eliseu.Foto: Juan de Valdés Leal (1622 – 1690), Igreja de Nossa Senhora do Carmo, Córdoba, Espanha.Elias e Henoc: dois profetas do Antigo Testamento ainda vivos
De acordo com as Escrituras, o profeta Elias foi raptado aos Céus num carro de fogo na presença de seu discípulo e sucessor Santo Eliseu:
‘eis que de repente um carro de fogo com cavalos de fogo os separou um do outro, e Elias subiu ao céu num turbilhão. Vendo isso, Eliseu exclamou: Meu pai, meu pai! Carro e cavalaria de Israel! E não o viu mais.’ (II Re, 2, 11-12)
O arrebatamento do profeta teria acontecido no ano 914 a. C., quando Elias tinha não menos de 46 anos.

É doutrina líquida entre os Padres e Doutores da Igreja que Santo Elias não morreu mas que se mantém em vida por disposição divina, aguardando para voltar no fim dos tempos e lutar contra o Anticristo.

Junto com ele, se encontraria Santo Henoc (escreve-se também: Enoc e Enoque), do qual a Bíblia ensina igualmente que foi levado vivo da Terra:

‘Após o nascimento de Matusalém, Henoc andou com Deus durante trezentos anos, (…) Henoc andou com Deus e desapareceu, porque Deus o levou.’ (Gen, 5, 22-24) e

‘Henoc agradou a Deus e foi transportado ao paraíso, para excitar as nações à penitência’ (Eccl, XLIV, 16).

Henoc teria sido levado da Terra por volta do ano 3.019 a.C., 987 anos após a criação de Adão, quando tinha 365 anos (viveu antes que Deus diminuísse a duração da vida dos homens).
Mistérios da vida deles

 

Onde se encontram? Como vivem? Têm contato com a Terra? Em quais condições vão regressar?

O assunto tem apaixonado a doutores e santos da Igreja. O eruditíssimo e famosíssimo comentarista das Sagradas Escrituras, P. Cornelio a Lapide S.J., resume as opiniões de maior peso e conclui:

‘o lugar onde se encontram Elias e Henoc é incerto. Em qualquer caso, seja um local terrestre ou etéreo, Elias leva uma vida quieta e santa, na contemplação de Deus, (…)

 

Elias e Henoc, ícone do século XVII, Museu Histórico, Sanok, Polônia.  Elias e Henoc, ícone do século XVII, Museu Histórico, Sanok, Polônia.‘São Gregório Magno diz: ‘Elias foi elevado ao céu aéreo, para ser imediatamente levado a uma região secreta da terra, e ali viver numa grande quietude da carne e do espírito, até que volte no fim do mundo e pague o débito da morte’ (Hom. 29, in Evang.).
‘Elias e Henoc já são candidatos à eternidade, habitantes do paraíso (…) e estão confirmados em graça’, segundo Suárez.
‘E embora não vejam a Deus, nem gozem da beatitude celeste, recebem muitas luzes e consolações divinas, pois estão como que ‘no átrio da casa do Senhor’. Pelo que são visitados pelos anjos com muito maior frequência que os outros homens, e com eles conversam.
‘Vivem da palavra divina, sem alimento nem bebida para o corpo, porque Deus lhes conserva incorruptos (assim como suas roupas, como conservou as vestes dos judeus durante quarenta anos no deserto), sãos, alegres, ágeis, gozosos, exultantes com sua situação, estado e missão.
‘E dão graças a Deus, porque só eles dois – entre muitos milhões de homens – foram escolhidos para lutar por Nosso Senhor no fim do mundo contra o Anticristo, converter as nações e os judeus e ser coroados com um martírio glorioso. 
‘E, por causa de seu rapto, incorruptibilidade e longevidade, comunicar aos homens a fé e a esperança na ressurreição’ (R. P. Cornelio a Lapide SI, Commentaria in Scripturam Sacram, Ludovicus Vivès Bibliopola Editor, Paris. In Librum IV Regum, Cap II, 11).
Santo Tomás de Aquino também conclui: ‘Henoc foi levado para o paraíso terrestre, onde se crê que, juntamente com Elias, viverá até que ocorra a vinda do Anticristo’. (Suma Teológica, Parte III, questão 49, artigo 5, objeção 2).

Elias e Henoc se encontram com a idade que tinham na Terra quando foram levados.

Segundo o Génesis, Henoc tinha 365 anos quando deixou a Terra.

Segundo Cornelio a Lapide, Elias tinha 46 anos pelo menos quando foi arrebatado (id. ibid.). Em 20 de julho de 2017, a Igreja comemorou o 2931º aniversário do rapto de Elias.

Presença e intervenção de Elias nos eventos humanos Santo Elias, século XVIII. Igreja do Santo Anjo, Sevilha, Espanha.Santo Elias, século XVIII. Igreja do Santo Anjo, Sevilha, Espanha.O segundo livro de Paralipómenos (XXI, 12) narra que Joram, rei de Judá, recebeu uma carta de Elias, que naquela data já tinha deixado a Terra. Como, quando e de que modo foi enviada essa missiva do além?

O próprio Pe. Cornelio a Lapide, após analisar abundantes opiniões de teólogos e doutores, conclui:
‘Elias, portanto, escreveu a carta no paraíso, para increpar mais rigorosamente o ímpio e convertê-lo, assim como para tornar patente quanta solicitude têm ele e os santos pelos homens fiéis, ainda depois desta vida’ (Cornelio a Lapide, id. ibid, In Librum II Paralipomenon, Cap. XXI).

E acrescenta: ‘Vemos que Elias, pese a ser morador do paraíso, mantém acesso seu prístino zelo por Deus, cuidando dos assuntos dos homens mortais, solícito pela salvação de seu povo’ (Cornelio a Lapide, id. ibid., In Ecclesiasticum, cap. XLVIII, 1-12). Aplacar a cólera divina e reacender o amor de
DeusO Eclesiástico também diz de Elias: ‘Tu que foste escolhido pelos decretos dos tempos para amenizar a cólera do Senhor, reconciliar os corações dos pais com os filhos, e restabelecer as tribos de Jacó’(Eclesiástico, 48, 10).

Sobre isso comenta Cornelio a Lapide: ‘Deus decretou com juízo justo e sapiencial que, após muitos milhares de anos, num tempo determinado, num certo ano, mês e dia, Elias voltará para lutar por Cristo contra o Anticristo. (…) ‘É como se dissesse: ‘está prescrito e predito que, num determinado tempo previsto e decidido por Deus, tu voltarás para Lhe aplacar a ira’.’ (Cornelio a Lapide, id. ibid). Anúncio divino da vinda de ambos os profetasNo Apocalipse, Deus anuncia para os últimos tempos: ‘incumbirei às minhas duas testemunhas, vestidas de saco, profetizarem por mil duzentos e sessenta dias. São eles as duas oliveiras e os dois candelabros que se mantêm diante do Senhor da terra’ (Ap, XI, 3 e 4.).

Após avaliar grande número de opiniões, Cornelio a Lapide da a interpretação mais recorrente:

‘essas duas testemunhas indicam aqueles dois varões que lutarão por Cristo contra o Anticristo. Todos concordam que um deles será Elias. (…) se depreende das palavras de São João que eles aparecerão na terra de modo súbito e inopinado.

‘Sem embargo, como virão, se transportados visivelmente pelos ares por um carro de fogo, ou por uma nuvem, ou por qualquer outro meio; como aparecerão imperceptível e subitamente em Jerusalém, ou em algum outro local, nem a Escritura, nem os Padres explicam’ (Cornelio a Lapide, id. ibid. In Apocalypsin, cap XI, 3-19).

As duas testemunhas lutarão contra o Anticristo. As duas testemunhas lutarão contra o Anticristo.Foto: Ottheinrich-Bibel, Bayerische Staatsbibliothek.

Quem virá nos salvar? O profeta Elias ou alguém com seu espírito?
Santo Elias, Monte Carmelo, Terra Santa, mosteiro de Elias, estátua onde exterminou os profetas de Baal. Santo Elias, Monte Carmelo, Terra Santa, mosteiro de Elias, estátua onde exterminou os profetas de Baal.O Beato Palau era consumido pelo desejo de que viesse o próprio profeta Elias em pessoa, a mandos do próprio Deus para libertar a Igreja e a Civilização da ditadura da Revolução (ver Beato Palau: Deus dispôs uma missão extraordinária para nos libertar )

Mas reconhecia que poderia não tratar-se dele próprio, mas de alguém revestido de seu espírito e de sua missão.

Quer dizer, de outra pessoa que merecesse ser chamada de Elias por semelhança de perfil moral, virtudes e tarefa providencial.

Será Elias o tesbita, aquele próprio que profetizou durante o reinado de Acab e Jesabel, reis de Israel? Não sabemos.

‘Mas não tem nada contra a fé acreditar que seja um homem qualquer, um pescador como Pedro, o filho de um marceneiro como Jesus, um pobre homem, ignorante segundo a ciência do mundo, mas sábio para sua missão’ (‘Cálculos del Ermitaño’, El Ermitaño, Nº 163, 21-12-1871).

‘Virá ele próprio, o tesbita — refletia em outra ocasião —, ou antes seu espírito e sua missão em um Moisés. Não nos atrevemos a emitir um juízo.

‘Talvez seja sua missão, e não sua pessoa, e em tal caso cairiam muitos em erro, porque diriam dele o que disseram de Jesus filho, de um marceneiro, e de uma mulher chamada Maria (…)

‘um homem com missão especial de Deus: esse homem, quer se chame Elias, Henoc, ou o que quiserdes, será o Restaurador’ (‘La Restauración’, El Ermitaño, Nº 154, 19-10-1871).

‘Esse apóstolo será Elias, o Elias prometido, seja qual for o nome que ao parecer lhe será dado.

‘Chame-se João, Moisés, Pedro, o nome importa pouco; a missão de Elias restaurará a sociedade humana porque assim Deus, na sua Providencia, tem ordenado’ (‘Anarquía social’, El Ermitaño, Nº 113, 5-1-1871).

A distinção entre a pessoa de Elias e seu espírito e missão é fundamental. Mas apresenta dificuldades que a relação entre São João Batista e Santo Elias ajuda a esclarecer.
São João Batista increpa o rei Herodes.  São João Batista increpa o rei Herodes.Foto: Giovanni Fattori (1825 – 1908).

 

O profeta Zacarias comparou São João Batista a Elias e anunciou que seria o precursor de Nosso Senhor Jesus Cristo:

‘Caminhará diante do Senhor no espírito de Elias para conduzir os corações dos pais aos filhos, e os rebeldes à prudência dos justos a fim de preparar ao Senhor um povo bem disposto’ (Lc, I, 17).

Por sua vez, quando os discípulos indagaram a Nosso Senhor como entender aquelas palavras de que seria precedido por Elias, o Divino Mestre respondeu:

‘Eu vos digo: Elias já veio, e não o reconheceram, pelo contrário, fizeram com ele o que quiseram; (…) Então os discípulos entenderam que lhes falava de João o Batista’ (Mt, XVII, 12-13).

Dessa maneira, em sentido simbólico-místico, São João Batista foi o Elias anunciado para antes da primeira vinda de Nosso Senhor.

Enquanto tal, é distinto do Elias histórico, que profetizou nos tempos de rei Acab e que retornará à terra antes da segunda vinda de Nosso Senhor e do Juízo Final.

O acatadíssimo comentarista das Sagradas Escrituras, Padre Cornelio a Lapide SJ, explica que o ‘espírito de Elias’ consiste ‘no espírito da virtude, quer dizer, da força e da eficácia. (…)

‘Esse espírito foi semelhante em Elias e em João Batista. (…)  ‘assim como Elias precederá com grande força de espírito e eficácia a segunda vinda de Cristo, de modo a debelar os infiéis e convertê-los à fé, assim também João, com o mesmo espírito e a mesma eficácia, precedeu a primeira vinda de Cristo ‘para converter os filhos ao coração dos pais, e os incrédulos à prudência dos justos’ (R.P. Cornelio a Lapide SI, Commentaria in Scripturam Sacram, Ludovicus Vivès Bibliopola Editor, Paris. In Lucam, Cap I.).

Por tudo isso, se não vier Elias em pessoa, o bem-aventurado deduzia lógica e firmemente que viria um enviado de Deus dotado da força e da eficácia do grande profeta do Carmelo para restaurar a Igreja e a civilização cristã.

 

Fonte: https://aparicaodelasalette.blogspot.com.br/p/beato-palau.html#17080816 via http://www.mulhervestidadesol.com.br

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2 Thoughts to “O Mistério do Retorno de Elias e Henoc

  1. Fica mais lógico se colocarmos a reencarnação na equação!

    E se o espiritismo for o consolador mencionado em João 16 “ele vos guiará em toda a verdade; porque não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido”.

    Ainda tenho muito que vos dizer, mas vós não o podeis suportar agora.
    Mas, quando vier aquele Espírito de verdade, ele vos guiará em toda a verdade; porque não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido, e vos anunciará o que há de vir.
    Ele me glorificará, porque há de receber do que é meu, e vo-lo há de anunciar.

    1. Revelações

      Orlando Fedeli

      
      A doutrina da reencarnação é comum a vários sistemas religiosos, todos de fundo gnóstico. Ela provém de um erro a respeito do problema do mal e da justiça divina. Modernamente, a doutrina da reencarnação se tornou muito difundida pelo espiritismo.

      Os reencarnacionistas defendem a tese de que cada pessoa teria várias vidas, e se reencarnaria para pagar os pecados de uma vida anterior. Desse modo, cada vida nos seria concedida para expiar erros, que não conhecemos, de uma vida que teríamos tido. Cada reencarnação seria um castigo pelos males que praticamos em vidas anteriores. Não haveria inferno. O castigo do homem seria viver neste mundo material, e não tornar-se puro espírito. Para os reencarnacionistas, “o inferno é aqui”.

      Eles recusam admitir que esta vida é única, e que, após a morte, somos julgados por Deus e premiados com o céu, ou punidos temporariamente no purgatório, ou condenados eternamente ao inferno. Exigem uma “nova oportunidade”, enquanto recusam mudar de vida agora. A eles poderia ser aplicado o que diz um autor a respeito do tempo e do adiamento dos deveres: “Por que prometes fazer, num futuro que não tens, aquilo que recusas fazer no tempo que tens?”. Assim também o que defende a teoria da reencarnação pretende melhorar nas futuras vidas – que imagina terá – o que se recusa a melhorar já, na vida que tem.

      Para os hinduístas, a reencarnação poderia se dar pela transmigração do espírito até no corpo de um animal ou planta. Para os espíritas, a reencarnação se daria apenas em corpos humanos.

      REFUTAÇÃO

      Se a alma humana se reencarna para pagar os pecados cometidos numa vida anterior, deve-se considerar a vida como uma punição, e não um bem em si. Ora, se a vida fosse um castigo, ansiaríamos por deixá-la, visto que todo homem quer que seu castigo acabe logo. Ninguém quer ficar em castigo longamente. Entretanto, ninguém deseja, em sã consciência, deixar de viver. Logo, a vida não é um castigo. Pelo contrário, a vida humana é o maior bem natural que possuímos.

      Se a alma se reencarna para pagar os pecados de uma vida anterior, dever-se-ia perguntar quando se iniciou esta série de reencarnações. Onde estava o homem quando pecou pela primeira vez? Tinha ele então corpo? Ou era puro espírito? Se tinha corpo, então já estava sendo castigado. Onde pecara antes? Só poderia ter pecado quando ainda era puro espírito. Como foi esse pecado? Era então o homem parte da divindade? Como poderia ter havido pecado em Deus? Se não era parte da divindade, o que era então o homem antes de ter corpo? Era anjo? Mas o anjo não é uma alma humana sem corpo. O anjo é um ser de natureza diversa da humana. Que era o espírito humano quando teria pecado essa primeira vez?
      Se a reencarnação fosse verdadeira, com o passar dos séculos haveria necessariamente uma diminuição dos seres humanos, pois que, à medida que se aperfeiçoassem, deixariam de se reencarnar. No limite, a humanidade estaria caminhando para a extinção. Ora, tal não acontece. Pelo contrário, a humanidade está crescendo em número. Logo, não existe a reencarnação.

      Respondem os espíritas que Deus estaria criando continuamente novos espíritos. Mas então, esse Deus criaria sempre novos espíritos em pecado, que precisariam sempre se reencarnar. Jamais cria ele espíritos perfeitos?

      Se a reencarnação dos espíritos é um castigo para eles, o ter corpo seria um mal para o espírito humano. Ora, ter corpo é necessário para o homem, cuja alma só pode conhecer através do uso dos sentidos. Haveria então uma contradição na natureza humana, o que é um absurdo, porque Deus tudo fez com bondade e ordem.

      Se a reencarnação fosse verdadeira, o nascer seria um mal, pois significaria cair num estado de punição, e todo nascimento deveria causar-nos tristeza Morrer, pelo contrário, significaria uma libertação, e deveria causar-nos alegria. Ora, todo nascimento de uma criança é causa de alegria, enquanto a morte causa-nos tristeza. Logo, a reencarnação não é verdadeira.
      Vimos que se a reencarnação fosse verdadeira, todo nascimento seria causa de tristeza. Mas, se tal fosse certo, o casamento – causador de novos nascimentos e reencarnações – seria mau. Ora, isto é um absurdo. Logo, a reencarnação é falsa.

      Caso a reencarnação fosse uma realidade, as pessoas nasceriam de determinado casal somente em função de seus pecados em vida anterior. Tivessem sido outros os seus pecados, outros teriam sido seus pais. Portanto, a relação de um filho com seus pais seria apenas uma casualidade, e não teria importância maior. No fundo, os filhos nada teria a ver com seus pais, o que é um absurdo.

      A reencarnação causa uma destruição da caridade. Se uma pessoa nasce em certa situação de necessidade, doente, ou em situação social inferior ou nociva — como escrava, por exemplo, ou pária – nada se deveria fazer para ajudá-la, porque propiciar-lhe qualquer auxílio seria, de fato, burlar a justiça divina que determinou que ela nascesse em tal situação como justo castigo de seus pecados numa vida anterior. É por isso que na Índia, país em que se crê normalmente na reencarnação, praticamente ninguém se preocupa em auxiliar os infelizes párias. A reencarnação destrói a caridade. Portanto, é falsa.
      A reencarnação causaria uma tendência à imoralidade e não um incentivo à virtude. Com efeito, se sabemos que temos só uma vida e que, ao fim dela, seremos julgados por Deus, procuramos converter-nos antes da morte. Pelo contrário, se imaginamos que teremos milhares de vidas e reencarnações, então não nos veríamos impelidos à conversão imediata. Como um aluno que tivesse a possibilidade de fazer milhares de provas de recuperação, para ser promovido, pouco se importaria em perder uma prova – pois poderia facilmente recuperar essa perda em provas futuras – assim também, havendo milhares de reencarnações, o homem seria levado a desleixar seu aprimoramento moral, porque confiaria em recuperar-se no futuro. Diria alguém: “Esta vida atual, desta vez, quero aproveitá-la gozando à vontade. Em outra encarnação, recuperar-me-ei” . Portanto, a reencarnação impele mais à imoralidade do que à virtude.

      Ademais, por que esforçar-se, combatendo vícios e defeitos, se a recuperação é praticamente fatal, ao final de um processo de reencarnações infindas?
      Se assim fosse, então ninguém seria condenado a um inferno eterno, porque todos se salvariam ao cabo de um número infindável de reencarnações. Não haveria inferno. Se isso fosse assim, como se explicaria que Cristo Nosso Senhor afirmou que, no juízo final, Ele dirá aos maus: “Ide malditos para o fogo eterno”? (Mt. XXV, 41)

      Se a reencarnação fosse verdadeira, o homem seria salvador de si mesmo, porque ele mesmo pagaria suficientemente suas faltas por meio de reencarnações sucessivas. Se fosse assim, Cristo não seria o Redentor do homem. O sacrifício do Calvário seria nulo e sem sentido. Cada um salvar-se-ia por si mesmo. O homem seria o redentor de si mesmo. Essa é uma tese fundamental da Gnose.
      Em conseqüência, a Missa e todos os Sacramentos não teriam valor nenhum e seriam inúteis ou dispensáveis. O que é outro absurdo herético.
      A doutrina da reencarnação conduz necessariamente à idéia gnóstica de que o homem é o redentor de si mesmo. Mas, se assim fosse, cairíamos num dilema:
      Ou as ofensas feitas a Deus pelo homem não teriam gravidade infinita;
      Ou o mérito do homem seria de si, infinito.

      Que a ofensa do homem a Deus tenha gravidade infinita decorre da própria infinitude de Deus. Logo, dever-se-ia concluir que, se homem é redentor de si mesmo, pagando com seus próprios méritos as ofensas feitas por ele a Deus infinito, é porque seus méritos pessoais são infinitos. Ora, só Deus pode ter méritos infinitos. Logo, o homem seria divino. O que é uma conclusão gnóstica ou panteísta. De qualquer modo, absurda. Logo, a reencarnação é uma falsidade.

      Se o homem fosse divino por sua natureza, como se explicaria ser ele capaz de pecado? A doutrina da reencarnação leva, então, à conclusão de que o mal moral provém da própria natureza divina. O que significa a aceitação do dualismo maniqueu e gnóstico. A reencarnação leva necessariamente à aceitação do dualismo metafísico, que é tese gnóstica que repugna à razão e é contra a Fé.

      É essa tendência dualista e gnóstica que leva os espíritas, defensores da reencarnação, a considerarem que o mal é algo substancial e metafísico, e não apenas moral. O que, de novo, é tese da Gnose.

      Se, reencarnando-se infinitamente, o homem tende à perfeição, não se compreende como, ao final desse processo, ele não se torne perfeito de modo absoluto, isto é, ele se torne Deus, já que ele tem em sua própria natureza essa capacidade de aperfeiçoamento infindo.
      A doutrina da reencarnação, admitindo várias mortes sucessivas para o homem, contraria diretamente o que Deus ensinou na Sagrada Escritura.
      Por exemplo, São Paulo escreveu:

      “O homem só morre uma vez” (Heb. IX, 27).

      Também no Livro de Jó está escrito:

      “Assim o homem, quando dormir, não ressuscitará, até que o céu seja consumido, não despertará, nem se levantará de seu sono” (Jó, XIV,12).

      Finalmente, a doutrina da reencarnação vai frontalmente contra o ensinamento de Cristo no Evangelho. Com efeito, ao ensinar a parábola do rico e do pobre Lázaro, Cristo Nosso Senhor disse que, quando ambos morreram, foram imediatamente julgados por Deus, sendo o mau rico mandado para o castigo eterno, e Lázaro mandado para o seio de Abraão, isto é, para o céu. (Cfr. Lucas XVI, 19-31)
      E, nessa mesma parábola Cristo nega que possa alguma alma voltar para ensinar algo aos vivos.

      Em adendo a tudo isto, embora sem que seja argumento contrário à reencarnação, convém recordar que na, Sagrada Escritura, Deus proíbe que se invoquem as almas dos mortos.

      No Deuteronômio se lê: “Não se ache entre vós quem purifique seu filho ou sua filha, fazendo-os passar pelo fogo, nem quem consulte os advinhos ou observe sonhos ou agouros, nem quem use malefícios, nem quem seja encantador, nem quem consulte os pitões [os médiuns] ou advinhos, ou indague dos mortos a verdade. Porque o Senhor abomina todas estas coisas e por tais maldades exterminará estes povos à tua entrada” (Deut. XVIII-10-12).

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