Papa alegadamente diz que o inferno não existe na última “entrevista” com Scalfari

Papa alegadamente diz que o inferno não existe na última “entrevista” com Scalfari

 

29 de março de 2018
O filósofo ateu nonagenário também afirma que o papa tem a honra de ser chamado de “revolucionário”, mas o Vaticano enfatiza que, embora os dois homens tenham se encontrado, nenhuma entrevista foi dada e os comentários não são uma tradução “fiel” do que foi dito.

 

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por Edward Pentin

 

O Papa Francisco recebeu novamente Eugenio Scalfari, o filósofo ateu de 93 anos, levando a comentários mais polêmicos que o Vaticano teve que insistir que não são “fiéis” às palavras do Papa.
Em seu quinto encontro com o filósofo ateu, Scalfari – que não registra entrevistas nem toma notas – disse que o papa teria dito a ele novamente que o inferno não existe e que ele está honrado por ser chamado de “revolucionário”.
Os supostos comentários do papa foram publicados na quinta-feira no La Repubblica, o jornal italiano de esquerda e Scalfari seu fundador, e que o papa disse ser seu jornal favorito.
“O inferno não existe – o que existe é o desaparecimento de almas pecaminosas”, alegou o papa. “Elas não são punidas, aqueles que se arrependem obtêm o perdão de Deus e vão entre as fileiras das almas que o contemplam. Mas aqueles que não se arrependem e, portanto, não podem ser perdoados, desaparecem ”.
As manchetes se espalharam rapidamente pelo mundo dizendo que o Papa Francisco acredita que o inferno não existe, uma crença que romperia com 2.000 anos de ensinamentos da Igreja.
O porta-voz do Vaticano, Greg Burke, disse em um comunicado na quinta-feira que o papa havia “recebido recentemente” Scalfari “em uma reunião privada na Páscoa, mas não lhe deu nenhuma entrevista”.
Ele acrescentou que “como relatado hoje” por Scalfari, “o artigo é o resultado de sua reconstrução, no qual as palavras exatas faladas pelo Papa não são citadas”. Burke disse que “nenhuma aspa no artigo acima deve ser considerada como uma transcrição fiel das palavras do Santo Padre. ”
Conversas anteriores entre o Papa e Scalfari muitas vezes causaram controvérsia, e levaram o Vaticano a emitir declarações semelhantes depois, nem confirmando ou negando totalmente o Papa se disse as palavras reais atribuídas a ele, mas lançando dúvidas sobre a sua veracidade.
Os comentários do Papa nesta ocasião são questionáveis, pois estão em desacordo com declarações anteriores em que ele falou da existência do Inferno, mais recentemente na semana passada, quando ele apelou à máfia para que desistissem de suas vidas de crime e evitassem a condenação eterna.
Mas Francisco também deu sinais ao contrário, pregando no ano passado que “tudo será salvo – tudo” e que no final da história haverá uma “imensa tenda, onde Deus acolherá toda a humanidade para morar com eles definitivamente.” Ele também disse que o julgamento não deve ser temido porque “no final de nossa história há o Jesus misericordioso ”.
Em outra parte da entrevista, o papa supostamente disse que a palavra “revolucionário” é aquela que “me honra no sentido em que é dito”. Ele também discutiu o tema da criação e pediu à Europa que se fortalecesse política e moralmente.
Em entrevistas anteriores com o famoso ateu italiano, o Papa é suposto ter dito a Scalfari que não se convertesse, disse que “os comunistas pensam como cristãos” e que “não há Deus católico”. Em uma entrevista em 2015, Scalfari relatou que o papa alegando fazer uma afirmação similar a de hoje, disse que “não há punição” para uma alma que não se arrepende, “mas a aniquilação daquela alma”.
Scalfari disse na quinta-feira que ele e o papa mantém contato telefônico “frequentemente” e “trocam notícias um ao outro, mas às vezes nos encontramos novamente e conversamos por mais tempo, sobre religião e política”.
Após um encontro anterior entre o Papa e Scalfari em 2016, Riccardo Cascioli, diretor do diário católico italiano La Nuova Bussola Quotidiana, saudou o fato de que o papa está estabelecendo relações com pessoas como Scalfari “que estão longe”.
Mas ele também alertou que os comentários vindos de tais entrevistas se tornam “uma causa de escândalo no sentido literal do termo” porque eles “desorientam e confundem muitos católicos, também porque essas sentenças são usadas e abusadas” por aqueles cujo propósito é “a destruição da Igreja ”.

 

Fonte: http://www.ncregister.com/blog/edward-pentin/pope-allegedly-says-hell-doesnt-exist-in-latest-scalfari-interview

 

 

VATICANO EMITE COMUNICADO

 

29/03/2018 – 19:34

 

O Vaticano repreendeu nesta quinta-feira um conhecido jornalista italiano que citou o Papa Francisco dizendo que o inferno não existe.
CIDADE DO VATICANO (Reuters) – O Vaticano emitiu um comunicado depois que os comentários se espalharam pela mídia social, dizendo que eles não refletiam adequadamente o que o papa havia dito.
Eugenio Scalfari, 93, um ateu declarado que estabeleceu uma amizade intelectual com Francis, conheceu o papa recentemente e escreveu uma longa história que incluía uma seção de perguntas e respostas no final.
O Vaticano disse que o papa não lhe concedeu uma entrevista e que o artigo “foi o fruto de sua reconstrução”, não uma “transcrição fiel das palavras do Santo Padre”.
Scalfari, o fundador do jornal italiano La Repubblica, orgulha-se de não tomar notas e não usar gravadores durante seus encontros com líderes e depois reconstruir as reuniões para criar artigos longos.
De acordo com o artigo de Scalfari no La Repubblica de quinta-feira, ele perguntou ao papa onde “almas ruins” vão e onde elas são punidas. Scalfari citou o papa dizendo:
“Eles não são punidos. Aqueles que se arrependem obtêm o perdão de Deus e tomam seu lugar entre os que o contemplam, mas aqueles que não se arrependem e não podem ser perdoados desaparecem. Um Inferno não existe, o desaparecimento de almas pecadoras existe. “
O catecismo universal da Igreja Católica diz que “o ensino da Igreja Católica afirma a existência do inferno e sua eternidade”. Ele fala de “fogo eterno” e acrescenta que “a principal punição do inferno é a eterna separação de Deus”.
Foi pelo menos a terceira vez que o Vaticano emitiu declarações distanciando-se dos artigos de Scalfari sobre o papa, incluindo um em 2014 em que o jornalista disse que o pontífice aboliu o pecado.

 

Fonte: http://www.jpost.com/Christian-News/Vatican-rebukes-journalist-who-quoted-pope-as-denying-hell-547458?

 

 

”É uma honra ser chamado de revolucionário”. Entrevista com o Papa Francisco

 

29 Março 2018

 

A criação, a queda e a salvação. A Europa, a África e a América do Sul. A modernidade e as suas contradições. A religião e as suas relações com as pessoas seculares. A política e a moral. Na Semana Santa, Bergoglio dialoga de modo abrangente com o fundador do jornal La Repubblica, Eugenio Scalfari, 28-03-2018.
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A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Esta é a semana da Paixão, segundo a história cristã, que atinge seu auge com a Última Ceia, a traição de Judas, a prisão de Jesus, o colóquio com Pilatos e, depois, a crucificação, a morte e o som pleno dos sinos em todas as igrejas do mundo onde se festeja o “ressurrexit”. Assim se concluiu a história de três anos de pregação do filho de Maria e de José da tribo de Davi, que, em três anos, fundou uma religião que, de algum modo, continua a religião judaica da Bíblia, mas com novos princípios que, naqueles três anos, lançaram a semente de uma revolução religiosa, mas também social e política no bem e no mal, no pecado e no perdão, nos delitos e na misericórdia.
Na terça-feira, 27, à tarde, encontrei-me com o Papa Francisco, a seu convite, no andar térreo do Palácio de Santa Marta, no Vaticano, onde o papa vive e recebe os amigos. Eu tenho o privilégio de ser seu amigo. Encontramo-nos cinco vezes: em uma delas, eu estava com toda a minha família. Nas outras quatro, falamos sobre tudo. Um não crente e do papa, bispo de Roma no sólio de Pedro, e inspirado principalmente pelas cartas de Paulo, que transformou o cristianismo em uma religião destinada a ser a mais seguida, junto com a muçulmana, com a qual Francisco buscou e ainda busca a fraternidade em nome de um Deus Único no qual todas as religiões devem se inspirar.
Muitas vezes nós nos telefonamos, o papa e eu, para trocar notícias um sobre o outro, mas, às vezes, nos encontramos de novo juntos e conversamos longamente. Sobre religião e sobre política.
Esta, eu dizia, é a semana chamada da “Paixão”. Jesus e os seus 12 apóstolos chegam a Jerusalém acolhidos por uma multidão festiva, a mesma que, depois do interrogatório com Pilatos, será chamada a dizer quem merece ser libertado entre Cristo e Barrabás, que já está nas galeras romanas de Jerusalém.
Jesus ainda não foi preso e decide dirigir-se ao jardim chamado de Getsêmani, seguido pelos apóstolos, ele os para e lhes diz que esperem por ele. Avança naquele jardim, onde, em certo ponto, está completamente sozinho, volta-se para o Pai e diz: “Se quiseres e puderes, não me faças beber este cálice amargo, mas, se não quiseres, beberei até o fim”. Ele não recebe resposta algum e compreende que o Pai não o salvará.
Enquanto isso, guiados por Judas, chegam os guardas e os legionários enviados pelos sumos sacerdotes que pegam Jesus e o levam ao tribunal. De lá, depois de ter ouvido também o parecer dos máximos sacerdotes de Jerusalém, a sentença da crucificação é definitiva e ocorre, como sabemos, na colina do Gólgota.
Tudo isso, pergunto ao Papa Francisco, deriva da expulsão de Adão e Eva do Paraíso terrestre, de seu exílio sobre a terra, onde vivemos desde então? Então, a criação não é aquela esplendidamente pintada por Michelangelo no teto da Capela Sistina, mas ocorre quando Deus vê que Adão e Eva tinham cedido às seduções de um diabo serpente e romperam a única proibição que lhes havia sido posta. A verdadeira criação, portanto, está na sua expulsão do Paraíso terrestre, é essa a criação?
Francisco ouve essa minha pergunta e depois me responde de modo completamente diferente do que se costuma contar. “A criação – ele me diz – não se cumpre desse modo descrito. O Criador, isto é, o Deus no alto dos céus, criou o universo interno e, acima de tudo, a energia, que é o instrumento com o qual nosso Senhor criou a terra, as montanhas, o mar, as estrelas, as galáxias e as naturezas vivas e até mesmo as partículas e os átomos e as diversas espécies que a natureza divina trouxe à vida. Cada espécie dura milhares ou talvez bilhões de anos, mas depois desaparece. A energia fez explodir o universo que se modifica de tempos em tempos. Novas espécies substituem aquelas que desapareceram, e é o Deus criador que regula essa alternância.”

 

Eis a entrevista.

 

Santidade, no nosso encontro anterior, o senhor me disse que a nossa espécie desaparecerá em certo ponto, e Deus, sempre a partir de sua semente criativa, criará outras espécies. O senhor nunca me falou sobre almas que morreram no pecado e vão para o inferno para descontá-lo eternamente. O senhor, em vez disso, me falou sobre almas boas e admitidas à contemplação de Deus. Mas e as almas más? Onde são punidas?
Não são punidas. Aquelas que se arrependem obtêm o perdão de Deus e vão entre as fileiras das almas que o contemplam, mas aquelas que não se arrependem e, portanto, não podem ser perdoadas, desaparecem. Não existe um inferno, existe o desaparecimento das almas pecadoras.

 

Santidade, o senhor, papa ou bispo de Roma – como prefere se chamar – também se ocupa de política?
O senhor se refere a política religiosa?
Santidade, a política é política, ocupa-se do gênero humano. Para um papa, ela sempre tem um caráter religioso, mas não apenas. Aliás, o senhor sempre me disse que, em uma Igreja que busca se encontrar com a modernidade – e o senhor assumiu essa tarefa – como o Concílio Vaticano II prescreveu, a política é, ao mesmo tempo, religiosa e secular. O senhor, desde quando segue com atenção os seus deveres, reconhece a modernidade como uma meta a ser alcançada. De onde parte esse esclarecimento?

 

Historicamente, eu diria que a modernidade parte de um ponto de vista ateu e cultural de Michel de Montaigne. Uma leitura quase necessária. O início do Iluminismo é Montaigne. Depois, continua até Kant, através de uma série de passagens que, naturalmente, não param nele. Mas a fronteira da modernidade, que eu levo em consideração, não cabe a mim investigá-la, no entanto, é bom conhecê-la. O representante da cristandade deve prestar atenção em outros problemas.
Por exemplo, a educação dos jovens. Em certos casos, eles procuram trabalhar e fazem-no bem, mas trabalhar não é suficiente, o trabalho deve ser encorajado, mas, junto com ele, há outro sentimento igualmente necessário e talvez até mais importante: o sentimento de amor pelo próximo, pela própria família, pela própria cidade. Insisto sobretudo no amor pelo próximo. A Igreja se estende a uma santidade civil e cristã no sentido mais amplo. A religião, para mim, é de grande importância, mas estou ciente de que é possível ter o senso religioso em casa, mesmo sem praticá-lo. Ou se pratica uma religião, mas apenas nos seus rituais, e não com o coração e com a alma.
Se tivesse que dizer onde hoje a religiosidade é mais forte, eu indicaria as massas de povos da América do Sul, das planícies da América do Norte, da Oceania e da faixa da África de leste a oeste. A África é um continente agitado e conturbado, deve ser muito ajudado. É de lá que partiram as massas de escravos com seu fardo de sofrimento.

 

E a Europa, Santidade?

 

A Europa deve se fortalecer, política e moralmente. Aqui também há muitos pobres e muitos imigrantes. Dissemos que queremos conhecer a modernidade também nas suas quedas. A Europa é um continente que, durante séculos, travou guerras, revoluções, rivalidades e ódio, até mesmo na Igreja. Mas também foi uma terra onde a religiosidade atingiu o seu máximo, e, justamente por isso, eu assumi o nome de Francisco: este é um dos grandes exemplos da Igreja que deve ser compreendido e imitado.
O senhor, Santidade, deve se lembrar que eu, muitas vezes, quando escrevo sobre o senhor, chamo-o de revolucionário.
Sim, eu sei, e é uma palavra que me honra no sentido em que o senhor a diz. O senhor, pelo que eu sei, faz aniversário em poucos dias. Desejo-lhe muitas felicidades, e nos vemos novamente em breve.
* * *
Ele me acompanhou até o portão, nós nos abraçamos na frente de dois guardas suíços enrijecidos em sua posição e, depois, ele esperou que o carro partisse, lançando-me um beijo com os dedos, ao qual respondi do mesmo modo.
Voltando para casa, vieram à minha mente inconscientemente as frases de Salvini, Berlusconi, Renzi e Di Maio e tive uma sensação de profunda tristeza. No sábado, terei que me ocupar deles, mas o dobrar dos sinos me fará pensar no homem Jesus de Nazaré. Um homem e não mais do que um homem. Existe alguém, na sociedade dos nossos tempos, que pensa nele e se assemelha a ele. A política, infelizmente, se reduz ao caso. Sinto saudades dos tempos de Platão. Se fôssemos como ele… Mas, infelizmente, não há esperança.

 

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/577501-e-uma-honra-ser-chamado-de-revolucionario-entrevista-com-o-papa-francisco 

via http://www.sinaisdoreino.com.br

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